domingo, 20 de agosto de 2017

Monarch Trail - Sand (2017)


O nome de Ken Baird não é uma novidade no progressivo canadense, esteve de maneira solo na cena por quase quinze anos, quando decidiu após o lançamento do seu quinto disco, Further Out, expandir suas atividades e apresentar o trio Monarch Trail, um projeto formado pela necessidade de Baird produzir música em um maior status de trabalho em equipe. Após uma estreia bastante promissora em 2014 a banda está de volta com Sand,  um trabalho que certamente poderá ser visto como um dos melhores do ano dentro do universo musical progressivo. Como o último álbum, temos um trio aqui de chaves, baixo e bateria com três convidados ajudando guitarras. A mesma formação que foi na estreia.

O disco inicia com “Station Theme”, com baixo, piano e bateria, que se juntam rapidamente por sintetizadores, uma sonoridade espacial retro meio perturbadora, soando como um jingle para um programa de ficção científica no History Channel. O piano apresenta uma destreza que lembra Rick Wakeman. Os sintetizadores voltam junto do baixo e bateria “energizando” a música novamente antes de chegar ao fim.

Em “First Thoughts” os de desconhecem a voz de Ken logo de cara irão perceber que se trata de uma voz extremamente humilde, expressiva e de grande apelo emocional. Além do belo vocal, trata-se de uma breve canção de ninar, lavada em cascatas de sintetizadores de cordas e uma incursão de guitarra acústica que é simplesmente encantadora. Uma música brilhantemente simples e perfeita.

Digamos que o desembarque orbital completo ocorre em “Back to the Start'”, onde são sete minutos de um desenrolar de unidade sinfônica esplendorosa quase ritualística, teclados colossais liderados por um violento ataque de baixo. Ken revela seu ofício nas várias nuances de tecladas à sua disposição, passando de delicado para bombástico, de despretensioso para complexo, com inegável afluência. O guitarrista John Mamone cuspiu alguns bons lick para manter o impulso, outra peça cinematográfica.

“Missing” tece um caminho angustiante através de refluxos vocais e fluxos instrumentais, todos os teclados de Ken ardendo furiosamente, os sintetizadores em particular em chamas através de uma infinidade de solos que desafiam a lógica. Há um leve sentimento de IQ nas melodias e na entrega vocal, embora não seja perto do mesmo timbre de voz do que Peter Nicholls, o que acaba ilustrando uma banda que apesar das influências, tem um estilo próprio e gosta de cumpri-lo.

“Charlie's Kitchen” é uma canção de piano bar bem jazz que acrescenta guitarra cortante e uma seção de ritmo que se desloca que é legal e louco ao mesmo tempo. Ela se transforma vagarosamente em um passeio sinfônico bastante animado, cheio de pompa e circunstância, decorado com plumas de sintetizador floridos, por um lado, e complexidades métricas da batente no outro (sei que esse disco está me fazendo poetizar, mas não tenho culpa se a música me deixa assim). Todos os instrumentos simplesmente fascinantes.

“Another Silent World" é uma peça curta com sintetizadores e atmosfera em toda parte que serve como uma introdução inteligente para o épico que fecha o álbum. “Sand” é um épico ambicioso, começa com uma fragilidade musical de Anthony Phillips, uma criação de ambiente bucólico e pastoral que evolui para uma paisagem mais sinfônica, carregada de tons ameaçadores, medo delicado e solidão desavisada, chegando a uma linha teatral às vezes. O humor da faixa é sempre um enigma colidindo entre a promessa do futuro e o conforto relativo do passado, certamente uma definição bastante adequada de música progressiva moderna. A música segue com toda a sua exuberância em uma passagem instrumental maravilhosa liderada pelas teclas de Ken, crescendo em espirito com solo de guitarra, desafiado constantemente pelos sintetizadores estridentes e pianos persuasivos por baixo de tudo. Tudo entra em serenidade instrumental de belos vocais até crescerem em uma viagem emocionante de som e estilo que não pode deixar de impressionarem até o ouvinte mais casual. O final é apoteótico, influência clássica que apenas eleva o prazer do ouvinte, ultrapassando a norma musical comum, dando a sensação onírica como se estivéssemos empunhados a um passeio de tapete mágico em direção as estrelas. Simplesmente sensacional.

Se o primeiro álbum já foi um grande sucesso, aqui os arranjos, o desempenho dos músicos e a produção são muito superiores, o que significa que só podemos esperar um crescimento e a maior firmação da banda no cenário progressivo. Além disso, aqui, os ouvintes serão testemunhas de um dos mais proeminentes tecladistas atuais em ação, Ken Baird, podendo juntar a outros grandes nomes da era moderna como por exemplo. Clive Nolan, Fred Schendel, Andy Tillison, Neal Morse e Robert Reed. Em termo de sinfônico puro quem sabe até o melhor do ano, em termos de progressivo em geral, sem dúvida alguma, um dos melhores. Imperdível.

- Tiago Meneses - 

Track Listing

1.Station Theme - 3:52
2.First Thoughts - 3:22
3.Back To The Start - 7:11
4.Missing - 6:29
5.Charlie's Kitchen - 7:43
6.Another Silent World - 2:10
7.Sand - 24:31

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sábado, 19 de agosto de 2017

Genesis - Selling England By The Pound (1973)


Em 1973 o Genesis estava em uma sequência de três discos de qualidade elevadíssima, sendo o anterior, uma verdadeira obra-prima. Será que eles conseguiriam manter-se em alto nível a ponto que lançar outra obra prima apenas um ano depois? Não preciso responder, basta ouvir a beleza que é Selling England By The Pound pra ter a total certeza de que sim. Aqui a banda cria o que considero um mundo fictício em termos sonoros povoado com vinhetas musicais, sejam elas às vezes épicas em termos de impacto, sejam elas mais intimistas soando como uma música de campo. Traz uma sonoridade mais amena por parte de todos os instrumentos. Teclados suaves e mais sutis e com uma presença maior de piano, guitarras menos agressivas e mais românticas, a bateria sempre bem encaixada, cadencia-se moderadamente também dando ao álbum uma tendência suave, o baixo é limpo e com ótimas variações ainda que menos aparente que em trabalhos anteriores. Quanto ao vocal de Peter Gabriel, sempre marcante e nunca maçante, além de possuir uma carga pesada de sentimentos.

O disco começa através da faixa “Dancing With The Moonlit Knight” e que fala sobre a decadência da Inglaterra. “Você pode me dizer onde está o meu país?”, pergunta Peter Gabriel. Uma bela guitarra e um piano apaixonado começam a dar as primeiras roupagens à canção. Então que teve Hackett começa o tema de guitarra recorrente e que carrega mais adrenalina. Às vozes sintetizadas, a bateria e os riffs de guitarra elétrica bastante rápidos são perfeitos. A faixa surpreende em determinado momento com mudança de tempo dos teclados, novas melodias montando um rock progressivo de excelência. Peter Gabriel canta como se estivesse falando com duas pessoas diferentes e lhes dando instruções, mostrando porque pode ser considerado um mestre na mudança de tom enquanto canta. Os riffs repetidos tanto da guitarra quanto do teclado deixam a peça fantástica na visão de todo e qualquer amante de rock progressivo. A faixa termina com o mesmo humor melancólico que começou em um clima sonhador e meio pastoral.

“I Know What I Like (In Your Wardrobe)” é uma música mais curta e menos séria, baseada na capa do álbum, com o cortador de grama e todas as pessoas correndo para o campo. A música é cantada do ponto de vista de um cortador de grama, e as letras são bastante enigmáticas. Gosto da maneira como o álbum é apresentado, com faixas mais curtas em meio a peças mais longas. Musicalmente é bastante simples, mas não deixar de ter trabalhos interessantes principalmente de flauta, bateria e baixo além dos vocais sempre teatrais de Peter Gabriel.

“Firth Of Fifth” é um dos clássicos absolutos da história do rock progressivo. O piano inicia a faixa quase instrumental de uma maneira bastante bonita. Os vocais, guitarra elétrica e teclado entram muito de repente e seguem a progressão do piano, mas fazem com que a música se mova um pouco mais animada. Tudo é muito simpático e feliz, até o piano e a flauta fazer um dueto, com isso uma melodia muito melancólica e até deprimente atinge nossos ouvidos. . Por quase dez minutos, somos transportados para um mundo fantástico, alternando entre os vocais magníficos de Peter Gabriel, o virtuosismo do teclado de Tony Banks e sem deixar de esquecer Steve Hackett, puxando talvez o seu solo mais emblemático de guitarra. “Firth Of Fifth” é uma faixa que flui de maneira boa e má humorada, como um rio de mudança constante, última frase dita por Peter Gabriel antes de chegar ao seu final.

“More Fool Me” é considerada por muitos uma mancha negra no álbum se comparada com tudo o que ele oferece nas demais. Cantada por Phil Collins, aqui não se trata de um rock progressivo, mas uma música pop acústica de sonoridade suave. Phil Collins canta sobre sua namorada que parece tê-lo abandonado. Ao contrário de muitas pessoas eu não a desconsidero completamente e a acho uma canção de amor muito bonita e que funciona bem como um descanso entre as duas músicas épicas que a cercam.

“The Battle of Epping Forest” é uma canção muito intrincada com muitas emoções e um tema extraído de uma crônica sobre uma batalha de gangues que brigavam constantemente em Londres. A princípio remete a uma marcha militar sobe rufos de tambores, então que após ir silenciando, de fato a canção começa. A quantidade de mudanças no tempo faz a alegria dos mais exigentes fãs de rock progressivo. É interessante se atentar um pouco mais a letra pra perceberam como eles criam uma imagem clara do que está acontecendo. Em relação a isso maior crédito vai para Peter Gabriel e suas fantásticas características interpretativas. Hackett com sua guitarra também tem um bom momento quando Gabriel fala sobre um encontro de um padre com uma striper ou algo assim e ele apresenta uma linha de apoio fascinante e misteriosa. Uma faixa complexa de vocal difícil, ótimos teclados, guitarras elegantes e mais enérgicas como no caso do solo final, linhas de baixos discretas, mas bem executadas e excelentes frases de bateria.

“After The Ordeal” é novamente mais um ponto de descanso entre duas faixas épicas. Trabalho instrumental de uma beleza incrível, mantem a rica atmosfera do álbum perfeitamente em uma variante de melodias soberba. Steve Hackett é o destaque e delicia o ouvinte com exímia instrumentação acústica e elétrica. Enganadoramente simples é extremamente gratificante.

“The Cinema Show” e “Aisle of Plenty” apesar de separadas no disco devem ser encaradas como uma canção apenas. Talvez tirando “The Musical Box”, seja a música mais emocionalmente e sentida que Peter Gabriel já escreveu no Genesis. Tem sintetizadores maravilhosamente bonitos e melodias de guitarra entretidas juntamente com uma das melhores interpretações vocais de Gabriel. Por volta de três minutos existe sonoridade onírica e belíssima que segue até o retorno vocal e musical. A parte final é a mais progressiva com destaque para os teclados de Tony Banks. Um momento musical que necessita de plena atenção e respeito pra que o ouvinte entre de fato na ideia da banda a ponto de sentir-se deslocado pra outra espécie de dimensão. O motivo real de encarar “Aisleof Plenty” como parte de ”The Cinema Show” é o fato do começo de uma ser através do final da outra, a música é curta e segue relembrando pequenos temas de músicas que ocorreram no disco. Um final extremamente apropriado pra uma obra-prima.

Um disco de beleza rara, sensibilidade musical ímpar e do tipo que assombra a Terra somente uma vez a cada muitos anos. Umas das bíblias sagradas do rock progressivo. Tony Banks esteve excepcional nesse álbum, sendo definitivamente o seu melhor trabalho com a banda, às vezes sutil outra hora mostrando grande habilidade nas teclas. Steve Hackett foi excelente na criação de atmosferas com a assinatura Genesis como somente ele seria e é capaz de fazer, inclusive, já havia apresentado um grande desempenho nos dois discos anteriores do grupo, mas aqui ele além de maneira individual, trabalha bastante em prol da banda. Os vocais de Peter Gabriel brilham, sendo que a produção de sua voz nunca esteve tão boa, belas performances teatrais, emotivas e únicas que o fazem ser considerado o dono de uma das vozes mais marcantes da história do rock progressivo e que influenciou uma leva de infinitas bandas décadas seguintes. Mike Rutherford não ocupa o mesmo espaço de álbuns anteriores, talvez até mesmo por conta do destaque dos teclados de Banks, mas trabalhou com linhas sólidas, criativas e bastante eficazes sempre que acionado. Phil Collins na bateria é bastante impressionante, não necessariamente espetacular, mas muito meticuloso com linhas e movimentos que edificam sempre as músicas da banda.

A produção deste álbum é melhor do que qualquer álbum anterior do Genesis. É magistral e mostra uma banda em seu pico criativo. Posso dizer que sinto que longos feitiços são ocupados com passagens instrumentais que entram na alma e traz lágrimas aos olhos. Um registro atemporal que nasceu, se tornou e será eternamente um dos maiores clássicos da história do rock progressivo e mesmo da música em geral. 

- Tiago Meneses -

Track Listing

1.Dancing With The Moonlit Knight - 8:01
2.I Know What I Like (In Your Wardrobe) - 4:06
3.Firth Of Fifth - 9:34
4.More Fool Me - 3:09
5.The Battle Of Epping Forest - 11:43
6.After The Ordeal - 4:12
7.The Cinema Show - 11:06
8.Aisle Of Plenty - 1:31

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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Sfinx - Zalmoxe (1979)

A Romênia não costuma ser um país lembrado quando o assunto é rock progressivo, melhor dizendo, até na música em geral, mas em 1979 essa incrível banda lançou um dos melhores álbuns progressivos do final da década de 70. Zalmoxe é um disco conceitual com letras do poeta romeno Alexandru Basarab, baseado na figura folclórica “Zalmoxe”, que era um líder religioso divino sob o domínio do rei Burebista. O disco na época sofreu censura política, tendo a permissão para ser lançado somente três anos após suas gravações. Uma grande obra progressiva, os teclados tem o papel proeminente. Ás vezes pode remeter o ouvinte ao Genesis.

O disco abre em uma mistura de tirar o fôlego da introdução barroca e quase gregoriana de “Ursitoarele”, mas depois de alguns segundos, isso muda radicalmente pra uma fluidez sinfônica, meio heavy prog com múltiplas mudanças de excelentes riffs de guitarras.

“Blana de Urs” começa com uma longa seção introdutória que se transforma em uma passagem dirigida por órgão que me remete quase que imediatamente ao Yes. Bateria e baixo são excepcionais, complementando perfeitamente o trabalho criativo de guitarra, teclado e vocais, tudo soando deliciosamente. Não bastando isso, a música se transforma em um tipo de rock clássico, com teclados fortes que parecem simples, mas são bastante interessantes.

“Mierea” lembra bandas argentinas dos anos 70 por causa da maneira que eles fazem uma música elaborada parecer tão simples. Quase como uma balada suave, mas nesse caso com fugas surpreendentes de teclado. Novamente, bonito e interessante.

É triste ouvir esta ótima música e não ser capaz de entender as letras (não sei nem uma palavra de romeno), mas a beleza e a complexidade ingênua de sua música me deixam muito pensativo com isso, e “Pestera” é um ótimo exemplo, quando eu escuto os dois minutos de ruptura instrumental com um som que parece ser um instrumento de sopro nativo e teclados exuberantes, esqueço qualquer problema linguístico e só posso me concentrar na robusteza da música.

“Epifania” é outra balada tranquila que parece fluir suavemente de um lado para o outro sem surpresas, mas quando se fala de uma banda de rock progressivo, é sempre bom esperar o inesperado, uma mudança drástica ou um teclado exuberante redirecionam a faixa.

Furtuna Cu Trup de Balourmarca um ponto de interrupção no álbum, se as músicas anteriores eram suaves e melódicas, aqui o som é frenético e até pesado, com umas estruturas bastante incomuns. Tudo é executado de uma maneira original, mas menção especial às seções de órgãos que dão brilho extra a uma música já excelente.

“Cãlãtorul Prin Nori” é uma mistura estranha entre sons étnicos, música eletrônica e um pouco de Vangelis, mas a medida que a música avança, o componente folk assume o primeiro plano com a atmosfera nostálgica e calorosa, enquanto bateria e baixo dão um toque de mistério que parece levar a uma explosão de som que nunca vem, mantendo o ouvinte em suspense. Estrutura brilhante.

“Kogainon” já começa com um trabalho vocal extraordinário entre os coros de monastérios e influência em Queen, onde o próprio trabalho de guitarra também lembra Brian May. A faixa está sempre em uma crescente até chegar em um ponto que de repente para, uma ótima preparação para o grande final do álbum.

“Epilog” fecha o álbum com uma outra combinação incomum de sons e estilos, que vão de um vocal que flui bem a algo mais sombrio e misterioso. Uma faixa curta de final atmosférico e bastante edificante.

Um disco pra fazer com que olhemos com mais carinho para a cena progressiva da Europa Oriental dos anos 70, pra percebermos sua versatilidade, suas sonoridades nativas e destreza dos músicos escondidos em uma parte pouco explorada do continente.

- Tiago Meneses -

Track Listing

1.Ursitoarele - 5:30
2.Blana de Urs - 4:00 
3.Mierea - 4:28
4.Pestera - 4:10
5.Epifania - 4:11
6.Furtuna Cu Trup de Balour - 4:53
7.Cãlãtorul Prin Nori - 6:26
8.Kogaion - 5:28 
9.Epilog - 3:00

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Soul Enema - Of Clans and Clones and Clowns (2017)


Fundado em 2001, este excelente projeto israelense encabeçado pelo músico, Constantin Glantz está de volta depois de sete anos desde o seu álbum de estreia e com formação completamente nova. Glantz continua perfeccionista quando se trata de criar sua música e, assim como no álbum de estreia o ouvinte é levado a um passeio musical eclético e igualmente atraente, com cada elemento aumentando a qualidade geral com alguns detalhes. Além dos cinco músicos integrais da banda, o álbum conta com mais oito convidados que inclui Arjen Lucassen, famoso por idealizar o projeto Ayreon e que aqui deixa sua marca solando na faixa Eternal Child. Devido a toda a atenção prestada a cada pequeno detalhe, Of Clans and Clones and Clowns vem como um projeto liso e sério, onde toda ideia e composição são cuidadosamente criadas e colocadas no lugar apropriado para dar ao álbum o fluxo musical perfeito de ideias e energias.

Muita atenção é dada à produção também e apesar de ser bastante complexa e multicamadas, o álbum mantém uma sensação orgânica espontânea que, surpreendentemente, não soa sobre produzida e não contém excesso. A partir do início da música "Omon Ra", a banda exibe uma fusão eclética de vários gêneros, toda costurada perfeitamente em uma boa colagem musical de estilos e sons. Os riffs de guitarra de heavy metal se sobrepõem com outras polirritmias, incluindo sons do Oriente Médio e ataques de teclado ao melhor estilo progressivo sinfônico. A diversidade das faixas mantém o álbum interessante com os vocais de Noa Gruman, acrescentando um alcance de muita diversidade.

Tantos elementos acontecem que é impossível descrevê-los todos ou falar faixa por faixa. O fio comum é que é dada muita atenção aos ganchos melódicos cativantes que assumem possibilidades de progressivo e cruzamentos com outros gêneros, pesos das músicas se alternam entre o rufio de metal progressivo de pleno direito para um rock melódico mais calmo para faixas de piano simplistas. Existem muitas influências étnicas também com faixas como "The Age of Cosmic Baboon", que soa completamente exóticas com ritmos do Oriente Médio e percussão com o toque místico adicionado pela sitar. A mistura dos elementos rítmicos com a atmosférica é absolutamente fascinante à medida que eles se entrelaçam em perfeita união. As peças de guitarra pesadas podem se mudar abruptamente para um segmento de prog mais sinfônico com flautas alimentadas com folk. O ritmo está perfeitamente definido para cada parte se conectar ao que já ocorreu e o que está por vir. Enquanto a maioria das faixas tem uma sensação de metal ou rock na natureza, algumas como "Last Days Of Rome" trazem o bom rock antiquado para a mente, fazendo lembrar de artistas como Carole King, embora com um monte de outros elementos  da moda prog, digamos assim. "Dear Bollock (Was a Sensivite Man) é outra faixa de sonoridade exótica com Glantz mostrando suas habilidades como tocador de shamisen japonês.

Apesar do desfile de grandes ideias em qualquer faixa, a suíte de três partes “Aral Sea” é o momento mais progressivo do álbum, contando com uma sonoridade diversificada de humor a história do famoso mar que passou de um dos maiores do mundo a um processo hoje basicamente de desertificação por puro descuido humano. A primeira faixa é “Aral Sea I – Feeding Hand” que conta o conto da vida fértil, com guitarras pesadas, pianos melódicos e sinfônicos além de Noa fornecer uma das suas entregas mais dramáticas. “Aral II – Dustbin of History” começa em um ritmo que nos dá uma sensação de sonoridade do Oriente Médio, mas rapidamente a atmosfera fica de tristeza com efeitos eletrônicos dinâmicos de metais pesados mais ou menos como uma ideia de simular o mar que um dia já foi produtivo sendo desvanecido. Essa faixa também tem uma vibração única do Extremo Oriente devido a presença de Yossi Sassi oferecendo o som exclusivo da sua bouzoukitara, dando um toque verdadeiramente exótico. “Aral Sea III – Epilogo” tem o fim esperado da morte, mas realizado com uma interessante introdução de piano e percussão discordantes. Os vocais são bastante emotivos. A faixa também tem como convidado Sergey Kalugin da banda russa de progressivo, Orgia Prevednikov, na guitarra acústica. A faixa cresce em sua instrumentação tendo no seu final um solo de guitarra e uma sonoridade orquestral belíssima.

Constantin Gantz tem uma mente brilhante, consegue explorar vastos territórios melódicos e ritmos que vão facilmente de dois extremos que poucos se aventurariam fazer. Consegue oferecer uma jornada épica através dos melhores elementos encontrados no rock progressivo. Impressionante e aventureiro sem que se torne também estranho e sem sentido, demonstra que as possibilidades de misturas musicais quando bem cuidadas nos seus detalhes, sempre são válidas e agregam na singularidade do resultado sinal. 

- Tiago Meneses - 

Track Listing

1.Omon Ra - 7:02
2.Cannibalissimo Ltd. - 5:59
3.Spymania - 6:44
4.Breaking the Waves - 5:17
5.The Age of Cosmic Baboon - 4:33
6.In Bed With an Enemy - 5:58
7.Last Days of Rome - 4:22
8.Dear Bollock (Was a Sensitive Man) - 3:10
9.Aral Sea I - Feeding Hand - 8:47
10. Aral Sea II - Dustbin of History - 5:30
11.Aral Sea III - Epilogue - 6:25
12.Octopus Song - 2:54
13.Eternal Child - 5:35
14.Of Clans and Clones and Clowns - 0:41

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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

King Crimson - Islands (1971)


Islands é um disco que requer paciência e talvez por isso alguns fãs do King Crimson torcem um pouco o nariz pra ele. Particularmente eu não vi dificuldade alguma em me deixar levar pela música encontrada aqui. Existe um desenvolvimento lento e suave das peças. Apesar de que quem acompanha a banda sabe que eles costumam ter um lado suave, aqui é diferente, pois as coisas giram inteiramente em torno dessas passagens musicais tendo raros momentos mais ásperos e pesados. Não é bem um disco pra iniciar na banda, mas se você é familiarizado facilmente pode deixar cai-lo em suas graças.

“Formentera Lady” abre o disco com um bom contrabaixo levando o ouvinte de imediato a uma atmosfera clássica. Logo se junta a uma boa flauta e um piano que é completado com as primeiras frases vocais. Após os três primeiros minutos a música começa a decolar com os brilhantes tambores jazzísticos começando um pouco timidamente, mas melhorando em todo o álbum. Tem um momento de improvisação de piano que é belíssimo. Mais a frente há algumas peças de guitarras acústicas agradáveis, com Fripp mostrando seu habitual talento. O final da música mostra algumas partes brilhantes de improvisação.

“Sailor's Tale” começa com tambores funky e um baixo onde logo se juntam a guitarra e saxofone. A parte do solo de guitarra aqui se encaixa muito bem na música, levando a um clímax que é muito bom, com alguns instrumentos que tocam uma nota um tanto maior que se encaixam perfeitamente no motivo rítmico. O solo de saxofone é incrível. Após isso a música começa em uma parte maravilhosa e descontraída com Fripp “brincando na guitarra”. Sua diferença melódica e rítmica do baixo e da bateria aqui é brilhante. De repente essa parte ganha velocidade, seguindo agora com um apoio orquestral e improvisação da bateria.

“The Letters” começa com uma voz e trabalho de guitarra acústica novamente brilhante. Essa parte é bastante emocional com a guitarra escolhendo melodias continuamente alternadas. De repente, acontece uma explosão musical bem ao estilo King Crimson de ser e logo depois retorna a uma parte mais suave com todos os membros da banda mostrando que eles fazem música progressiva como deve ser, complexa, virtuosa e sentimental.

“The Ladies of the Road” é minha música favorita do disco, embora seja um pouco repetitiva. O baixo e a bateria são muito divertidos nesta música, com o excelente saxofone que toca no começo. O vocal faz um bom trabalho, mostrando algumas emoções trabalhadas em sua voz. O coro é maravilhosamente suave, com o alto som da guitarra e as segundas vozes. No final da música tem um solo de sax maravilhoso, mostrando mais um belo trabalho de Mel Collins.

“Prelude: Song Of The Gulls” é uma bela parte clássica, preparando o ouvinte para a faixa homônima ao disco e que fecha o trabalho. É uma faixa simples e que combina perfeitamente com o resto do disco, belas melodias que se assemelham com a introdução de Islands.

“Islands” apresenta um equilíbrio perfeito de letra e música, uma paternidade de Fripp e Sinfield. Mostra uma belíssima melodia acompanhada por piano e flauta. Tem um momento de saxofone solitário, o vazio de tudo se soma a atmosfera triste. A parte vocal/piano se repete, mas ao invés de terem junto a ela uma flauta, um violino a substitui. Uma faixa que se desenvolve muito bem e dá uma sensação onírica ao ouvinte, um poder imaginativo e a capacidade de despertar inúmeras sensações diferentes.

Por mais que o King Crimson dos anos 70 seja uma banda impressionante, nem sempre tudo produzido deve ser encarado como algo que deva existir amor à primeira audição. Islands é justamente esse tipo de registro, muitas vezes não compreendido logo de cara e largado de mão. Mas se lhe der mais do que uma chance a possibilidade que ele sempre cresça a cada audição é muito grande.

- Tiago Meneses - 

Track Listing

1.Formentera Lady - 10:14 
2.Sailor's Tale - 7:21
3.The Letters - 4:26 
4.Ladies Of The Road - 5:28
5.Prelude: Song Of The Gulls - 4:14
6.Islands - 11:51

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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Riverside - Anno Domini High Definition (2009)


Em seus três primeiros álbuns, a Riverside soava com uma banda de rock progressivo altamente agradável e que misturava elementos de bandas como Porcupine Tree, Marillion e Tool. O som era dominado por guitarra, baixo e as excelentes habilidades vocais de Mariusz Duda, que flertava ocasionalmente com o heavy metal. Os três primeiros álbuns formaram uma trilogia, onde em sua terceira parte a banda parecia já está com as ideias meio gastas. O que eu poderia esperar em seu quarto álbum? Confesso que não acreditava que pudessem fazer algo de alto nível, mas ainda bem que eu estava completamente enganado. A banda se reinventou, tudo bem que com isso poderia dividir os fãs, mas acho que ele seguiram o caminho certo e seu melhor disco. Anno Domino High Definition é mais pesado, agitado, dinâmico e com o uso de algumas das melhores aplicações de teclado da carreira da banda. A partir daqui a banda passou a ter uma faceta mais de metal progressivo, mas sem perder as suas influências dos anos 70, muito pelo contrário, parecem mais influenciados devido a multiplicidade de sintetizadores analógicos e órgãos vintage de hammond.

A primeira música do álbum é “Hyperactive”. Inicia-se com um tema de piano que lentamente desaparece enquanto as guitarras começam a encorpar a faixa. Os sintetizadores moog tocam ao longo dos riffs de heavy metal. Depois há uma seção de chamada e resposta entre vocais e instrumentação pesada. Uma ponte possui mais sintetizadores de hammond e mini-moog e o clímax da música é um solo de sintetizador analógico apoiado por um pesado riff de metal.

"Driven to Destruction" é uma faixa mais descontraída com toneladas e toneladas de nuances sutis que se pode continuar a descobrir com cada nova audição. Começa com uma linha de baixo, sintetizadores sujos e grossos até transitar para uma seção de influência latina com uma linha de piano exótica. A habilidade técnica presente nas notas fantasmas na bateria é suficiente para que eu possa dizer que o Riverside é um dos atos mais talentosos, menos óbvios, em toda a música progressiva moderna. A variedade das linhas vocais de Mariusz Duda também mantém as coisas sempre interessantes e frescas.

Ao contrário do que houve nas duas primeiras faixas, em "Edoist Hedonist" não fui pego logo de cara, mas fui mudando de opinião conforme ouvi o álbum mais vezes. Tem tantas texturas e modos diferentes que você não pode deixar de ficar fascinado com a forma como ela realmente funciona como uma faixa coesa. Os sintetizadores semelhantes a Emerson introduzem e terminam a seção de metais. Essa é inclusive uma parte bastante divertida, com trompa e linhas de baixo saltitantes alternando com partes mais pesadas com uma melodia de sintetizador muito eficaz. Novamente os teclados vintage ajudam o humor da música na sua parte mais suave. Os últimos três minutos da música tem grande influência na música do Oriente Médio.

“Left Out” é o momento mais emocionante do álbum e minha faixa favorita. Os primeiros minutos parecem influenciados pelo lado mais suave da Opeth e quase sem teclados. Novamente a variedade é a chave para que a música seja ótima. A música brevemente fica pesada por duas vezes com guitarras elétricas, execuções de órgão hammond e sintetizadores. Guitarras extremamente bem trabalhadas, baixo e bateria formam uma cozinha forte e os teclados variando entre bastante perceptíveis e atmosféricos completam de maneira perfeita a execução instrumental da música, com destaque para a parte final. Como não se pode deixar de mencionar, a interpretação vocal de Mariusz Duda é impecável.

“Hybrid Times” é com certeza a música mais desafiadora do álbum. O início é dominado por um piano elegantemente complexo e acelerado sobe ótimos vocais. O tema do piano então é interpretado por guitarras pesadas e sintetizadores. Um timbre soa semelhante a algo utilizado por Rick Wakeman. Depois de alguns minutos de metal influenciados por Dream Theater , vários teclados criam uma bela paisagem musical. Múltiplas mudanças frenéticas ocorrem durante a música, pode-se dizer que eles pretendem apresentar um resumo de cada linha progressiva feita até esse momento. Não é um tipo de música que sempre será digerível na primeira audição do ouvinte, pois sempre parece descobrir algo novo, algo diferente que deixou passar anteriormente. Depois de cerca de nove minutos de uma música tempestuosa, chega a bonança em uma passagem eletrônica  mais suave com direito a teclados vintage além de tudo ficar mais dissonante no final.

Este álbum marcou uma diferença notável na direção da escrita da Riverside. É um álbum que quebra barreiras e diz exatamente o que quer de forma concisa e despreocupada. Sem dúvida alguma que para aqueles que desconhecem a banda essa é a melhor porta de entrada. Impecável do início ao fim, musicalmente técnico, mas também bastante emocional. Recomendado pra qualquer pessoa interessada em uma banda que quebra os seus limites musicais, mas sempre bem direcionada e sem perder o foco. 

- Tiago Meneses -

Track Listing

1.Hyperactive - 5:45
2.Driven To Destruction - 7:06
3.Egoist Hedonist - 8:56
4.Left Out - 10:59
5.Hybrid Times - 11:53

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sábado, 12 de agosto de 2017

Yes - Relayer (1974)


Após o controverso, Tales From Topographic Oceans, a decisão de Rick Wakeman em seguir sozinho levou à sua substituição pelo (na época) relativamente desconhecido Patrick Moraz. O tecladista já havia substituído Keith Emerson efetivamente na The Nice, quando se tornaram Refugee, com isso, uma coisa era fato, suas credenciais eram bastante sólidas. Seu estilo, no entanto é um pouco diferente de Emerson e Wakeman, já que Moraz tem um som mais jazzístico. Ele é menos solista e contribui mais para o som geral de cada música. Isso dá a Relayer uma sensação diferente do que havia sido apresentado pela banda até então.

Cada membro da banda pode ser colocado em destaque aqui. Jon Anderson apresenta umas de suas melhores performances vocais e suas letras têm muito mais sentido que o habitual. Steve Howe está afiadíssimo em sua guitarra, complementada por um baixo igualmente energizado de Chris Squire. Alan White apresenta incríveis habilidades podendo colocar sua participação em Relayer com uma das mais inspiradas de sua carreira. Patrick Moraz, como já dito, é menos virtuoso, mas ao mesmo tempo, contribui de maneira requintada e criativa em todas as músicas.

O álbum contém apenas três faixas onde a de abertura é “Gates of Delirium”. Começa de maneira amena através de pratos, teclado, guitarra e baixo acessível. É diferente das introduções de outros épicos da banda. São cerca de dois minutos de preparação antes do vocal de Anderson entrar e a música de fato começar. Logo no início nota-se a diferença nos trabalho das teclas, onde ao contrário de Wakeman que quando toca os demais membros tendem a deixa-lo sozinho pra que ele faça sua viagem, Moraz convida todos os músicos pra se juntar a ele para criar uma peça de maquinaria complexa, mas bem oleada, na qual cada elemento tem a mesma importância. Depois de uma curta seção vocal de Anderson muito bem acompanhado por Squire, vem o festival de loucura com Howe liderando a “bagunça”, mas sempre complementado por Moraz, Squire e a bateria forte e precisa de Alan White, inclusive, ao ouvi-lo tocar percebe-se o quanto ele parece mais confortável devido a liberdade que lhe foi dada nesse disco. Por volta dos seis minutos de música o ouvinte pode esperar qualquer coisa, quando qualquer membro está tentando fazer um solo, outro membro irrompe em um caos musical bem intencionado, como se eles compartilhassem o controle de um pelo outro, Howe, Squire e Moraz criam um conflito maravilhoso de sons com mudanças radicais e inesperadas, além de ataques violentos aos instrumentos desafiando o ouvinte e eles mesmos como poucas bandas se atrevem. Uma música perfeita desde o seu início suave, o desenvolvimento complexo e o final brilhante com o delicado “Soon” que coloca novamente um ar nessa canção que é simplesmente de tirar o fôlego.

Em “Sound Chaser”, ao contrário do que foi visto na faixa anterior, começa de maneira perturbadora sem aviso prévio. Uma maravilhosa sonoridade entre o jazz e o progressivo que é um verdadeiro ataque aos sentidos, fazendo com que pareça que cada músico foi autorizado a fazer o que quiser em uma espécie de free jazz, mas se você notar com atenção existe uma estrutura muito bem elaborada no fundo em que cada nota e som têm um motivo de estar no seu lugar. Guitarras nervosas, teclados que servem como excelente paisagem sonora, baixo e bateria formam uma cozinha requintada e de pura técnica. A única coisa que não acrescenta muito na música são os “cha cha cha”cantado por Jon Anderson algumas vezes, mas ainda assim, pouco pra tirar dessa música o seu status de obra grandiosa.

“To Be Over”, depois da tempestade a bonança. Teclado e guitarra de maneira bela e serena dão início a música. Tem alguns dos vocais mais bonitos da história discográfica da banda e as melhores letras do álbum. Depois de quase dois minutos de introdução os vocais e a bateria ingressam na faixa, a cadencia da música vai continuando em um clima suave até ficar mais dramática e enérgica, também tem um excelente solo de guitarra sobre uma cama instrumental muito bem estruturada, os vocais retornam de maneira dramática e bela. Há um curto solo de teclado que soa bastante refrescante, já que ao contrário de discos anteriores, não se ouviu isso aqui até então. O álbum termina de maneira vibrante.

Um dos álbuns mais espetaculares da história do rock progressivo, tudo é muito bem elaborado. Provavelmente o disco mais melódico e emocionalmente satisfatório do Yes, a banda em um dos seus mais inspirados momentos. Não é apenas essencial, mas obrigatório. 

- Tiago Meneses - 

Track Listing

1.Gates Of Delirium - 22:55
2.Sound Chaser - 9:25
3.To Be Over - 9:08

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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Machines Dream - Black Science (2017)


Machine Dream me é uma grata surpresa desde que os conheci lançando o álbum de estreia em 2013. Algo que faz sua música ser tão agradável e natural é o fato da banda ter surgido sem pretensão alguma, eram apenas cinco amigos que se juntavam algumas vezes por semana para improvisar aquilo que seus corações musicalmente mandavam, mas que acabou fazendo com que essas ideias virassem seu primeiro disco. É fácil ver a linhagem da banda, os membros  sempre ouviram muito grupos como Pink Floyd, Genesis, King Crimson, Marillion, Porcupine Tree, Tool entre outras, podendo notar influência de todas elas na sua música. Mas claro que a banda quer fazer algo além do que homenagear bandas de rock progressivo do passado (seja distante ou mais próximo), querem compor músicas novas e experimentar sons originais, enfim, criar algo mais significativo. Em seu mais novo álbum, Black Science, a banda novamente acerta na fórmula e nos presenteia com mais um disco de grande beleza.

“Armistice Day” é uma curta faixa de um minuto e meio com um vocal reminiscente ao estilo de Roger Waters e atmosfera criada por sons eletrônicos que logo a fazem ligar a “Weimar”, música que já começa de maneira belíssima, teclado, piano e guitarra dando um ar sinfônico que é seguido por um vocal aberto. Tem excelente linha de baixo, um momento de cravo de influência barroca, um aumento no ritmo da música, excelente passagem de sintetizadores e indulgência geral da guitarra. Então que a faixa suaviza novamente para a sua cadência inicial até entrar um solo emotivo de guitarra seguido por outro de teclado.

“The Cannons Cry” começa com um riff pesado em um tema que adverte sobre o surgimento do fascismo e o uso da propaganda para impulsionar uma futura guerra de destruição de valores e princípios comuns. Nota-se aqui o quanto estes caras são fãs de Roger Waters, mas apesar disso, não é algo desonesto, buscando apenas complementar sua música com tal admiração e não deixar de serem eles mesmos.  Baixo pulsante, bateria enérgica e camas atmosféricas criadas pelos teclados complementam esta música excelente.

“Heavy Water” trata sobre a primeira bomba atômica. A música é uma tentativa de imaginar e personalizar o que o aviador na Enola Gay pode ter pensado e sentido antes de deixar cair a bomba. O piano desempenha um papel bonito e importante na música, as harmonias vocais são influenciadas por Pink Floyd. Na última parte instrumental da música, podemos desfrutar de um solo de guitarra melódico, ótima bateria e linha de baixo além de um agradável ​​tapete criado pelo teclado.

Após uma turbulência tão dramática, um momento mais leve da humanidade é encontrado em “Airfield on Sunwick”, uma história sincera sobre uma mascote de ursinho chamado Wojtek, que acompanhou uma heroica unidade de combate polonesa durante a Segunda Guerra Mundial. Jakub Olejnik, da banda polonesa, Maze Of Sound é um convidado vocal nessa faixa acrescentando nela uma boa autenticidade. Novamente a melodia principal é feita pelo piano. Destaque também para a ótima linha de baixo e o excelente solo de sintetizador no meio da música.

“Black Science” é uma faixa que se mostra está olhando para o século 20 como um todo, e sentindo que algumas das piores coisas se destacam mais do que as melhores. Os assassinos em série, o egoísmo, a economia neoliberal, o culto ao dinheiro, a destruição do meio ambiente, o apartheid e as guerras em uma escala diferente de qualquer coisa antes. Apresenta uma melodia bastante simples e delicada sobre um ritmo desanimado. Destaque para o final através de belo e sombrio solo de saxofone que entra na música pra fazer um dano emocional grave no ouvinte.

Depois de um começo suave, “UXB” mostra-se uma peça progressiva, mas mais pesada que o resto do álbum, os vocais são cantados de maneira mais agressiva. O baixo é colocado em uma camada de destaque. Na faixa também há um solo de sintetizador característico do estilo progressivo moderno seguido por uma guitarra estridente dando uma atmosfera caótica. Então que a faixa se acalma para finalizar em um trabalho de piano clássico.

O álbum fecha com a faixa “Noise to Signal”, uma música sobre a internet, saturação de mídia, fatos alternativos e notícias falsas. Uma música obscura com parte pesadas de guitarra, mas também com melodias mais leves de sintetizadores. Musicalmente e liricamente extremamente rica, muda de direção depois da metade com o retorno liderado por pianos, a deixando mais leve e edificante. Após a sua mensagem final, “Shut down the noise, become the signal” (desligue o barulho, torne-se o sinal),a música finaliza com um belíssimo solo de saxofone.

Um disco que é uma grata surpresa e que mostra uma enorme maturidade em todos os seguimentos de sua criação, musicalidade, escrita e produção. É projetado de forma excelente e pensativa e não apenas os fãs de rock progressivo, mas de música em geral encontrarão muito aqui pra ser apreciado. Black Science não se trata somente de um registro musical, mas uma mensagem.

- Tiago Meneses - 

Track Listing

1.Armistice Day - 1:34
2.Weimar - 10:40
3.The Cannons Cry - 4:18
4.Heavy Water - 8:36
5.Airfield on Sunwick - 6:11
6.Black Science - 8:17
7.UXB - 4:59
8.Noise to Signal - 8:47

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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Campo di Marte - Campo di Marte (1973)


Campo di Marte foi mais uma das inúmeras bandas one shot surgidas na Itália durante a década de 70 que após o lançamento de um disco e devido a falta de apoio pra prosseguir, tiveram que encerrar as atividades precocemente. Mas como boa parte do que aconteceu com essas bandas, o disco deixado é de qualidade ímpar. A maioria das músicas é na verdade uma ótima combinação entre riffs pesados e a finesa progressiva da escola italiana. Os músicos tocaram de forma impecável. O único ponto negativo eu diria que é a produção, mas se pegarmos o fato que o disco foi feito em 1973 e sem muito apoio é completamente compreensível.

Começa com “Primo Tempo” de uma maneira que mais me faz lembrar Black Sabbath do que uma banda sinfônica italiana. Bateria dissonante e guitarra entrando em colisão com os teclados criam um hard progressivo. Essas passagens pesadas são contrastadas com climas pastorais de vocais reservados e órgão flutuante além de um momento acústico e de flauta muito bem direcionada. O baixo é pulsante e a bateria não deixa a música perder o oxigênio. Um belo e sinistro início de álbum.

Em “Secundo Tempo” sim eu posso dizer que começa de maneira que podemos esperar de uma banda italiana, suave e acústica com uma bela melodia em que os músicos daquele país sabem fazer muito bem, a flauta onírica cria uma atmosfera densa, mas melódica e só é interrompida com a bateria que ao entrar cria um excelente contraste a música. Á medida que a música vai avançando também lhe são acrescidos um tipo de jazz latino e influência em Genesis reforçados por mellotron. Tudo flui suavemente até o maravilhoso final com guitarras distorcidas.

Terzo Tempo” é uma verdadeira caixa de surpresa. Traz um início confuso e meio cacofônico com Enrico Rossa torturando o violão quase em uma veia metal, mas depois de alguns segundos, o piano e os vocais tradicionais mudam radicalmente o humor da música para uma espécie de balada melancólica, mas que logo em seguida muda novamente o seguimento através de um piano que desvia a sua direção para uma música de melodia mais sinfônica. Na verdade as mudanças são continuas nessa faixa, mantendo sempre o interesse do ouvinte, como o bom rock progressivo deve ser.

“Quarto Tempo” parece na verdade duas faixas diferentes, onde a primeira é composta por um solo de órgão barroco na veia de Johan Sebastian Bach, mas que de repente se transforma em uma canção de rock sinfônico de tirar o fôlego, onde todos os instrumentistas dão tudo que eles têm a oferecer. E se isso já não fosse o bastante, apresenta um final acústico surpreendente e que pode ser visto como a cereja do bolo.

Quinto Tempo” tem o início com intrincados fio de guitarra, seguido por belíssima melodia de flauta, belo também são as melodias vocais que entram. A levada da bateria, guitarra acústica e o órgão é algo fabuloso, assim como uma parte engrandecida pelo uso de mellotron. Na parte final novamente encontra-se a agradável melodia vocal antes que a faixa chegue ao fim. De certa forma uma música bastante previsível, mas que os sutis e inesperados detalhes sempre me agarram em cheio.

“Sesto Tempo” é uma música de excentricidade absurda, parece que a banda misturou todos os estilos que conseguiram criar e os juntou com o único propósito de surpreender o ouvinte despreparado, mas apesar disso, o resultado é fantástico, cada colisão entre as seções acontecem de maneira natural. Tem bastante energia, guitarra às vezes fervorosa, órgão nervoso, sintetizadores e trompetes bem encaixados, um baixo latejante e bateria extremamente bem direcionada e tocada de forma sólida. Deliciosa do começo ao fim.

“Settimo Tempo” é a última música do álbum. Apresenta bons contrastes entre uma guitarra intrincada com o órgão e bateria. Mas é uma faixa tão contraditória e complexa que possui várias mudanças de temas e estilos musicais. Confesso que descrevê-la é complicado, pois fico com receio das palavras destruírem a sua beleza. Um final extremamente digno de encerrar uma obra tão maravilhosa.

Mais uma entre tantas bandas italianas que lançaram apenas um álbum quando é nítido o quanto mais ainda tinha a oferecer. Disco obrigatório a qualquer apreciador do rock progressivo vindo da terra da bota. 

- Tiago Meneses - 

Track Listing

1.Primo Tempo - 8:10
2.Secundo Tempo - 3:20
3.Terzo Tempo - 6:20
4.Quarto Tempo - 3:15
5.Quinto Tempo - 5:58
6.Sesto Tempo - 5:12
7.Settimo Tempo - 8:28

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